Quarta-feira, Outubro 07, 2009
Quinta-feira, Setembro 17, 2009
Coluna na revista Caras
Segue o link: http://www.caras.com.br/edicoes/828/textos/15160/
Quarta-feira, Agosto 19, 2009
Quarta-feira, Maio 06, 2009
Felicidade via correio
Leite derramado;
Coração andarilho;
Primavera num espelho partido;
Saga Lusa;
A chave da casa.
OBS: Jamais confie no prazo de entrega da Fnac. Desconfie sempre da Americanas.com e confie cegamente no Submarino.
Terça-feira, Abril 21, 2009
Vassouras - Maranhão (pequenos Lençóis)
"Num sentimento de febre de ser para além doutro oceano
Houve posições dum viver mais claro e mais límpido
E aparências duma cidade de seres
Não irreais mas lívidos de impossibilidade, consagrados em
[pureza e em nudez
Fui pórtico desta visão irrita e os sentimentos eram só o desejo
[de os ter
A noção das coisas fora de si, tinha-as cada um adentro
Todos viviam na vida dos restantes
E a maneira de sentir estava no modo de se viver
Mas a forma daqueles rostos tinha a placidez do orvalho
A nudez era um silêncio de formas sem modo de ser
E houve pasmos de toda a realidade ser só isto
Mas a vida era a vida e só era a vida."
Rio Preguiças - Maranhão
Os file eram a "memória" da raça.
Porque ainda não surgira o artista imortalizador que gravasse na pedra eterna ou inscrevesse na folha destrutível a tradição nacional, os file guardavam na memória, transmitindo, de homem a homem, não só os hinos improvisados pelos bardos como as lendas do gênio popular, e a história, conservada nesses monumentos orais, ia dum a outro, como a chama dum círio passa a outro círio."
A Conquista, de Coelho Neto
Terça-feira, Abril 14, 2009
Segunda-feira, Abril 13, 2009
Quinta-feira, Março 26, 2009
Quarta-feira, Março 18, 2009
Encontros.!.
.............Sempre que viajo, levo alguns livros _ companheiros de jornada. Sempre que o meio de transporte é aéreo, reservo um espaço na bolsa de mão para um novo amigo. Adoro entrar na livraria do aeroporto e ver a quantidade de revistas e livros de fotografias nas estantes! Adoro chegar mais cedo e ter tempo de sobra para olhar, folhear, tatear, cheirar, sentir novidades e clássicos literários. Sempre escolho um, o eleito daquela viagem. E nessa escolha aleatória, vou de peito aberto, deixo que ele _o livro_ me seduza. É delicioso, quando volto de viagem e meses, ou anos, após pego o livro na estante e dou aquele sorriso de cumplicidade _ tantas lembranças................Na viagem a Fernando de Noronha fiquei instigada por "A tecelã de sonhos" na livraria do segundo andar, mas como queria uma revista sobre mergulho, que só tinha na livraria do terceiro andar, deixei para comprar os dois juntos e pagar no cartão. Quando cheguei lá, a pequena livraria só tinha a revista. Comprei, lanchei e quase na hora do check in uma frase da segunda página do livro continuou ressoando na mente. Pedi ao meu marido para esperar cinco minutos, corri à livraria do segundo andar, a grande, e comprei o livro. E me deu uma alegria... sabe quando a gente encontra na bolsa alguma coisa importante que pensou ter esquecido? Claro que quando voltei, encontrei meu marido rindo, sobre o meu vício literário.
.............Em Noronha, comecei a ler "A tecelã de sonhos", mas as maravilhas de Noronha eram tantas e tão intensas que a alma já estava transbordando de belezas. Senti que teria que deixar para a volta. Dito e feito. Comecei a ler de verdade em Niterói, com o livro cheio de grãos de areia caindo sobre a blusa. Se o Ibama descobre, posso ser presa por crime ambiental, e não há fiança que me tire da prisão. Sim, o Ibama funciona perfeitamente em Noronha, não podemos tirar nada da natureza lá. Nem precisa, viajar para Noronha é uma experiência que tatua nos cinco sentidos sol, vento, onda, liberdade, mergulho, respeito pela vida - animal e humana, deslumbramento e algo mais, muito mais. Noronha é um Brasil que (quase) todo brasileiro sonha. Noronha é um Brasil sem assalto, sem desconfiança nos outros - só porque o outro é outro que você não conhece. É um Brasil em que um acredita na palavra do outro, sem precisar mostrar documentos. Noronha é arrumar a mochila todo dia de manhã com máscara, snorkel, nadadeira, protetor solar, água e, claro, um livro.
.............Livro que se misturava com gotas da água salgada e grãos de areia soltos na mochila. Livro que acabei de ler e ainda estou abraçada a ele numa emoção tão forte que nem consigo descrever. Livro que embaralhou e desembaralhou lembranças de infância, de ontem, de viagens, adolescência, escolhas, perdas, presenças. Livro que me fez ter vontade de voltar a escrever...
.............Livro que se chama "A tecelã de sonhos" de Angela Dutra de Menezes.
.............Eu não conhecia a autora, nem tinha recebido indicação, foi encontrado ao acaso. E posso dizer que foi o encontro. O meu encontro literário! Fiquei impressionada com a escrita da Angela - a intimidade é culpa da personagem Berenice, que se tornou um pouco-muito minha também - com os fluxos de pensamento, com o trabalho de linguagem e, especialmente, com a capacidade de entrega e paixão. Faz tempo, muito tempo que não lia um Livro assim, com L maiúsculo. Faz tempo, muito tempo que um livro não me afeta tanto assim. Faz tempo que um lugar não me deslumbra tanto assim. E também faz tempo que não recomendo nada por aqui, então lá vai:
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AVENTURE-SE, leia "A tecelã de sonhos" !!!
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O melhor livro que li nos últimos tempos...
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AVENTURE-SE, vá a Noronha !!!
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O melhor lugar do mundo que conheci nos últimos tempos...
Terça-feira, Março 03, 2009
Segunda-feira, Março 02, 2009
Poesias
Fotos: Sabine Marins
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"Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.
Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:
nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.
2.
A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.
Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.
Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.
3.
A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.
A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis - naturezas vivas.
E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.
Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar."
Lição de poesia, de João Cabral de Melo Neto
Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009
Quinta-feira, Janeiro 29, 2009
Fernando de Noronha - aqui vou eu... mergulhar com os tubarões!!!
Quando passei o Cabo das Tormentas
As sereias seguiram-me...
E o seu canto
Nunca fora, meu Deus, tão aliciante...
Até acreditei, num breve instante,
Que por algum milagre a nau transviada
Viesse acaso sonâmbula voltando
Às praias luminosas da alvorada...
Mas, ai de mim, esses enganos são
Pesadelos de luz!
Antes o escuro, o sossegado Sono...
Mas uma voz:
— Que dizes, nosso amor?
Ainda que nos escutes a teu lado,
Nós cantamos sempre no Futuro!
x x x x x x x
PREPARATIVOS DE VIAGEM
A louca agitação das vésperas de partida!
Com a algazarra das crianças atrapalhando tudo
E a gente esquecendo o que devia trazer,
Trazendo coisas que deviam ficar...
Mas é que as coisas também querem partir,
As coisas também querem chegar
A qualquer parte! — desde que não seja
Esse eterno mesmo lugar...
E em vão o Pai procura assumir o comando:
Mas acabou-se a autoridade...
Só existe no mundo esta grande novidade:
VIAJAR!
Mario Quintana
Terça-feira, Janeiro 27, 2009
Segunda-feira, Janeiro 26, 2009
Domingo, Janeiro 11, 2009
Sexta-feira, Dezembro 26, 2008
RECEITA DE ANO NOVO
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano não apenas
pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
Terça-feira, Novembro 25, 2008
Quarta-feira, Novembro 12, 2008
Sexta-feira, Novembro 07, 2008
Quarta-feira, Outubro 29, 2008
Aborto
Quantas mentiras naquelas verdades?
..........Ele fechou a porta e foram embora, como se fossem um casal ou como o casal que foram por um dia, uma tarde, um universo particular.
..........Desceram juntos no elevador pequeno, sufocante com o constrangimento disfarçado de sensatez. Alguma coisa na plácida civilidade soava falso.
..........Ela sentiu algo escorrer lentamente entre as pernas no momento exato em que ele disparou a palavra fatal. O útero expulsando as camadas acumuladas de nós. Pensou apenas no sofá, sujou? Tentativa inútil de dispersão. Pediu licença e se levantou. Olhou apreensiva, de relance para o xale bege. Não manchou o sofá. O sofá, não.
..........No banheiro resolveu a questão. Guardou o papel branco tingido de vermelho na bolsa pra não deixar pistas. As toalhas de banho penduradas na parede, cuidadosamente dobradas, tinham estrelas bordadas em alto relevo _ iguais às suas. As dele, azuis, as dela, amarelas; mas isso já não importava mais. Exceto a idéia de que quem usaria as azuis não seria ela.
..........Deixou a luz do banheiro acesa num ato inconsciente do qual só se tocou segundos depois. Ele, que esperava em pé com a chave na mão, andou em sua direção, entrou no banheiro com olhar 180 graus conferência e apagou a luz. Havia uma suspeita no ar. Dela? Dele?
..........No portão, um abraço. Melhor seria o aperto de mão. Mão? Não. Melhor aceno de olhos. Não. Melhor, não.
..........Enquanto ela caminhava até o carro, agora com liberdade de sentir, o corpo – sempre ele – exigia sua própria linguagem. E sem que ela pensasse, assim que entrou no carro, seus dedos digitaram números no celular e do outro lado truncado da linha, ele. Disse frases soltas que a conexão ruim se encarregou de não comunicar. Frases que não chegaram ao destinatário, mas precisavam ser ditas por ele – o corpo. Não por ela, por ela - nunca.
..........................O corpo tem suas verdades.
..........E foi justamente o corpo que quase se denunciou quando viu aquela fotografia momentos antes. Ele abriu a caixa com fotos da sua história, família, amigos e o portão azul. Nessa hora, ela piscou os olhos uma fração de segundo mais lento. Alguma coisa naquela imagem a fez entender, pontuou o fim. O portão fechado, de ferro e a parede amarela desbotada ao fundo numa combinação perfeita de tons e profundidade estavam em linhas paralelas. No espaço vazio _ vão, sem entrelaçamentos, sem olhos fechados em eternidades, sem tremores de terra nem descobertas. O sangue jorrou num fluxo intenso, de uma vez, ainda bem que a saia era preta.
..........Algum tempo se passou – ele sempre passa. E, numa dessas tardes qualquer, ela passava a terceira marcha e seguia, dobrando na primeira à direita. Enquanto isso, ele passava pelo túnel pensando em como era boa a sensação do escuro. Tirou os óculos pra enxergar melhor e viu faróis iluminando a faixa branca do acostamento.
..........Luzes vermelhas refletiam, fosforescentes, no asfalto molhado. A beleza tem tantas formas quanto às intensidades dos sentidos. De repente, num fragmento cotidiano, sentiu um arrepio. Diálogo mudo compartilhando leituras de mundo. Piscou os olhos uma fração de segundo mais lento, em sorriso, ganho na sorte do encontro sinfonia.
..........Gostava das cores difusas de lanternas, pisca - alerta e setas se movimentando, trânsito lento em dias de chuva. No lado de dentro vidros respingados, pára-brisas dizendo não em diferentes ritmos, sinais verdes falando sim, músicas tocando talvez. Todos juntos, brincando de roda, cata-ventos de alegria em pleno mês de outubro.
.......................Quantas verdades naquelas mentiras?






